Existe uma pergunta que poucos conselhos têm coragem de fazer em voz alta, mas que a maioria dos CEOs já respondeu, em silêncio, para si mesmo: se algum dos integrantes da mesa fosse substituído por um sistema de IA, a qualidade da decisão melhoraria ou pioraria? Segundo levantamento da Harris Poll para a Dataiku, replicado pela Exame, com 500 CEOs globais, 94% já respondem que um agente de inteligência artificial poderia oferecer aconselhamento igual ou superior ao de pelo menos um integrante presente hoje em suas reuniões estratégicas.
Esse número não é apenas espantoso — é um convite direto para qualquer conselho revisar a própria composição, antes que a comparação implícita na pesquisa se torne uma comparação explícita, feita em público, por acionista ou investidor.
Da teoria para a prática: quando IA já senta à mesa com poder de voto
Esse dado deixou de ser hipotético em outubro de 2025, quando a Samruk-Kazyna, fundo de riqueza soberana do Cazaquistão, nomeou formalmente a “SKAI” — um sistema de inteligência artificial — como membro votante do próprio conselho de administração, segundo reportagem da Harvard Business Review. Pesquisadores do Mack Institute, da Wharton, em parceria com o Centro de Governança Corporativa do INSEAD, decidiram testar essa fronteira diretamente: construíram um “conselho” simulado de múltiplos agentes de IA e o compararam a um conselho humano deliberando sobre o mesmo caso real de negócio.
O conselho de IA processou os materiais instantaneamente, seguiu os protocolos formais de qualquer reunião de conselho e interagiu de forma autônoma entre os próprios agentes antes de chegar a uma recomendação. O experimento não teve como objetivo provar que máquina substitui humano na governança — teve como objetivo expor, de forma controlada, uma limitação que a pesquisa da Dataiku já havia capturado em escala: diretores em tempo parcial, sobrecarregados por múltiplos compromissos simultâneos, frequentemente entregam menos profundidade analítica do que um sistema dedicado, disponível e sem fadiga cognitiva.
Por que isso não significa substituir conselheiro por algoritmo
O ponto mais importante para qualquer liderança que lê esse dado é resistir à tentação de interpretá-lo como recomendação para automatizar a governança. A pesquisa mede percepção de qualidade de aconselhamento em um recorte específico — geralmente análise de cenário, processamento de dado e consistência de raciocínio —, não a totalidade do que um conselheiro humano contribui: relacionamento com stakeholder, julgamento ético em zona cinzenta, responsabilização legal e experiência vivida que nenhum modelo replicaria de forma idêntica.
O próprio mercado já demonstra essa cautela. Um levantamento mais recente da mesma Dataiku mostra que a proporção de CEOs que se dizem “extremamente confiantes” para escalar IA agêntica caiu de 41% para 31% em um ano — um recuo que sinaliza reconhecimento crescente de que colocar agente para aconselhar é mais simples do que criar accountability clara sobre a decisão que resulta desse aconselhamento.
O que separa aconselhamento útil de risco de governança mal desenhado
A tensão real, então, não está em “usar ou não usar IA para apoiar decisão de conselho” — isso já é fato consumado em empresas mais avançadas. Está em decidir, com clareza formal, o papel que esse tipo de ferramenta deveria ocupar: observador que enriquece a discussão com dado e cenário, ou avaliador que efetivamente concorre com a contribuição humana na mesma cadeira.
No Brasil, agentes de IA não podem ter voto formal em conselho, já que não são pessoas naturais elegíveis, não são eleitos por acionista e não são sujeitos a responsabilização legal. Isso não elimina, porém, o efeito prático que já está em curso: agentes de IA cada vez mais presentes como observadores que influenciam a deliberação, mesmo sem poder decisório formal — uma zona cinzenta de governança que a maioria dos regimentos internos ainda não regulamenta.
O que isso exige de CEOs e conselheiros agora
Para qualquer liderança que leva esse dado a sério, o primeiro movimento não é comprar uma ferramenta de IA para “assessorar o conselho” — é auditar, com honestidade, a composição atual da mesa de decisão. Se 94% dos CEOs já reconhecem que ao menos um integrante da própria mesa poderia ser superado por um sistema de IA em qualidade de aconselhamento, a pergunta que qualquer comitê de governança deveria fazer é objetiva: esse integrante está ali pela qualidade do julgamento que oferece, ou por relação histórica, prestígio de nome ou inércia de manutenção do cargo?
Formalizar o papel de ferramentas de IA como apoio à decisão de conselho — deixando claro onde ela complementa julgamento humano e onde definitivamente não substitui responsabilização — é o tipo de exercício de governança que o Board Program da StartSe leva a lideranças que precisam repensar, com rigor, a própria composição de assessoria estratégica.
A pesquisa da Dataiku não está dizendo que todo conselho vai virar uma sala de servidores. Está dizendo que a maioria dos CEOs já fez, silenciosamente, uma comparação que a maioria dos conselhos ainda não teve a coragem de discutir formalmente — e ignorar essa comparação não a torna menos verdadeira, apenas posterga o momento em que alguém de fora vai fazer essa mesma pergunta em público.
